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sábado, 21 de janeiro de 2012

O TESTAMENTO DO MENDIGO Poesia

Agora,no fim da vida
Como mendigo que sou,
Me sinto preocupado,
Intrigado e num momento
Me pergunto,embaraçado,
Se faço ou não testamento.


Não tendo,como não tenho,

E nunca tive ninguém
Pra que é que eu vou deixar
Tudo o que eu tenho:
Os meus bens?


Pra quem é que eu vou deixar,

Se fizer um testamento,
Minhas calças remendadas.
O meu céu,minhas estrelas
Que não me canso de vê-las

Quando ao relento deitado
Deixo o olhar perdido.
Distante, no firmamento?

Se eu fizer um testamento

Pra quem é que eu vou deixar
Minha camisa rasgada,
As águas dos rios,dos lagos
Águas correntes,paradas
Onde às vezes tomo banho?

Pra quem é que eu vou deixar

Se fizer um testamento
Vagalumes que em rebanhos
cercam meu corpo de noite
Quando o verão é chegado?

Se eu fizer um testamento

Pra quem vou deixar
Mendigo assim como sou
Todo o ouro que me dá
O sol que vejo nascer
Quando acordo na alvorada?
O sol que seca meu corpo
Que o orvalho da madrugada
Com sua carícia molhou?

Pra quem é que eu vou deixar

Se fizer um testamento
Os meus bando de pardais
Que ao entardecer,nas árvores
Brincando de esconde-esconde
Procuram se divertir?
Pra quem é que eu vou deixar
Estas folhas de jornais
Que uso para me cobrir?

Se eu fizer um testamento

Pra quem é que eu vou deixar
Meu chapéu todo amassado
Onde escuto o tilintar
das moedas que me dão
Os que têm a alma boa
os que têm bom coração?

E antes que a vida me largue

Pra quem é que eu vou deixar
O grande estoque que tenho
Das palavras:"Deus lhe pague?"

Pra quem é que eu vou deixar

Se eu fizer um testamento
todas as folhas de outono
Que trazidas pelo vento
~^em meus pés atapetar?

Se eu fizer um testamento

Pra quem é que eu vou deixar
Minhas sandálias furadas
Que pisaram mil caminhos
Cheias do pó das estradas
Estradas por onde andei
Em andanças vagabundas?
pra quem é que eu vou deixar
Minhas saudades profundas
Dos sonhos que não sonhei?

Pra quem é que eu vou deixar

Se  fizer um testamento
Os bancos dos meus jardins
Onde durmo e onde acordo
entre rosas e jasmins?
Pra quem é que eu vou deixar
Todos os raios de luar
Que beijam minha mãos
Quando num canto da rua
Eu as ergo em oração?

Se eu fizer um testamento

Pra quem é que eu vou deixar
Meu cajado,meu farnel
e as marcas deste beijo
que uma criança deixou
em meu rosto perguntando
Se eu era Papai Noel?

Pra quem é que eu vou deixar

Se fizer um testamento
Este pedaço de trapo
Que no lixo eu encontrei
E que transformei em lenço
Para enxugar minhas lágrimas
quando fingi que chorei?

Se eu fizer um testamento..

Testamento não farei!
Sem nenhum papel passado
Que papéis eu não ligo
Agora estou resolvido
O que eu tenho deixarei
Na situação em que estou
Para qualquer outro mendigo
Rogando a Deus que o faça
Depois que eu tiver morrido
Ser tão feliz quanto eu sou.

Autor:Urbano Reis









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